“A situação evoluiu, mas ainda precisa melhorar. Não temos volume suficiente para atender plenamente todos os usos múltiplos de água. Alguns reservatórios tiveram recargas mais expressivas, como a Barragem de Oiticica, que vem apresentando uma entrada de água bastante positiva, até acima do que se esperava. Por outro lado, a Barragem Armando Ribeiro Gonçalves está atualmente com cerca de 42% da sua capacidade. É um reservatório estratégico, especialmente para a irrigação, que tem um peso importante na economia do estado”, pontua Procópio Lucena, presidente do Igarn.
“Se não houver uma boa recarga nos próximos meses, existe a preocupação de chegarmos ao final do ano com volumes mais baixos do que o ideal”, acrescentou. Segundo o Igarn, as chuvas dos últimos dias adicionaram 50,6 milhões de metros cúbicos aos reservatórios do estado. O volume acumulado das reservas hídricas monitoradas saiu de 1,93 bilhão de metros cúbicos (m³), equivalentes a 36,66% da capacidade total, para 1,99 bilhão de m³, ou seja, 37,62% da capacidade, entre 23 de fevereiro e a divulgação dos dados atualizados na segunda-feira.
Os 69 reservatórios têm capacidade hídrica de 5,29 bilhões de m³. A barragem Dinamarca, em Serra Negra do Norte, atingiu 100% da própria capacidade e começou a sangrar no domingo (1º). O reservatório tem capacidade total de 2,72 milhões de m³ e, no relatório do dia 23 de fevereiro, acumulava apenas 226,08 mil m³, o equivalente a 8,30% da capacidade. O manancial é responsável pelo abastecimento público municipal.
O açude Novo Angicos, em Angicos, registrou aumento de 35,38%, passando de 631,42 mil m³ (14,87%) para 2,133 milhões de m³ (50,25%) da capacidade total, que é de 4,24 milhões de m³. Além destes, outros 34 mananciais apresentaram melhora. Na outra ponta estão 20 reservatórios que não conseguiram melhorar os volumes. São eles: Boqueirão de Parelhas, Itans, Sabugi, Passagem das Traíras, Esguicho, Carnaúba, Bonito II, Dourado, Apanha Peixe e Gangorra.
Jesus Maria José, Beldroega, Tourão, Zangarelhas, Brejo, 25 de Março, São Gonçalo, Mundo Novo, Inspetoria e Lulu Pinto completam a lista. Desses, a situação mais crítica é observada em Mundo Novo, em Caicó (totalmente seco), Lulu Pinto, em Luís Gomes (0,01%), Passagem das Traíras, em São José do Seridó (0,03%), Itans, em Parelhas (0,05%), e Jesus Maria José, em Tenente Ananias (0,42%).
Efeitos
José Vieira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), aponta que os reservatórios em alerta estão concentrados principalmente nas regiões do Seridó, Alto Oeste e parte do Oeste potiguar, áreas onde, segundo ele, a economia rural depende fortemente da pecuária, da produção de forragem e da agricultura familiar. “Nessas regiões, a escassez de água afeta diretamente as atividades produtivas”, diz.
“A falta de reservatórios em níveis adequados reduz a disponibilidade de água para os rebanhos e para pequenas áreas irrigadas, o que obriga os produtores a recorrer à suplementação alimentar, elevando significativamente os custos de produção. Na pecuária, isso se traduz principalmente em perda de peso dos animais, redução da produção de leite e maior pressão sobre a renda das famílias rurais. A situação também impacta o abastecimento humano em diversas comunidades rurais, aumentando a dependência de carros-pipa e de outras soluções emergenciais”, prossegue Vieira.
O presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do estado (Fetarn), Erivam do Carmo, indica que a situação segue difícil. “Falta o manancial hídrico. Se tem água, a situação se inverte, porque o trabalhador pode plantar, variar a produção e aproveitar bem a água da chuva. Nas áreas onde os reservatórios estão acima de 50%, a gente pode dizer que existe uma maior tranquilidade”, avalia do Carmo.
Previsão
Segundo a Emparn, caso persista a tendência de aquecimento do Atlântico Sul, resfriamento do Atlântico Norte e condição de La Niña fraca no Pacífico, o período correspondente aos meses de março, abril e maio deverá apresentar chuvas dentro da normalidade. Nos dois primeiros meses, os volumes serão maiores, acima de 100 milímetros no Agreste e superiores a 200 milímetros no Alto Oeste. Em maio, último mês do período chuvoso nas regiões Oeste e Central, os índices tendem a diminuir. O quadro tem gerado boas perspectivas.
“Se a previsão da Emparn se confirmar, poderemos alcançar entre 50% e 55% da capacidade total dos reservatórios — podendo chegar até 60%. Assim, teremos um quadro hidrológico bastante positivo para o RN. Seguiremos acompanhando de perto cada atualização”, afirmou Procópio Lucena, presidente do Igarn. “Para a Faern, o estado não vive uma situação de colapso hídrico generalizado, mas ainda enfrenta um cenário de vulnerabilidade que exige cautela, planejamento e acompanhamento permanente da evolução do período chuvoso”, discorre José Vieira, da Federação da Agricultura.
Erivam do Carmo, da Federação dos Trabalhadores Rurais, diz estar otimista em relação à previsão. “Se tivermos a regularidade prevista, teremos uma boa produção”, fala. De acordo com o Igarn, os maiores mananciais do RN estão em processo de recarga atualmente, mas um deles, a Barragem de Oiticica – segundo maior reservatório do estado –, acumula 168,70 milhões de m³, correspondentes a 22,72% da capacidade total. Já a Barragem Armando Ribeiro Gonçalves acumula 1 bilhão de m³, o equivalente a 42,17% da capacidade geral. A Barragem Santa Cruz do Apodi registra 321 milhões de m³, correspondentes a 53,53% da capacidade total.
DADOS
Confira os volumes previstos de chuva por mesorregião:


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