O desempenho contrasta com estados como Bahia, Pernambuco e Ceará, que concentram maior volume de empresas inadimplentes, mas não atingem o mesmo nível de comprometimento financeiro por empresa. Para a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, esse tipo de cenário exige uma leitura mais aprofundada. “Esse resultado mostra que a inadimplência precisa ser analisada não apenas pelo volume de empresas, mas também pela intensidade das dívidas. No caso do Rio Grande do Norte, os dados indicam uma inadimplência concentrada em empresas com dívidas mais elevadas”, afirma.
Segundo ela, esse padrão é ainda mais sensível em economias com forte presença de pequenos negócios. “Um ticket médio na casa de alguns milhares de reais, multiplicado por várias dívidas por empresa, representa uma pressão significativa sobre o caixa e torna o processo de recuperação mais difícil”, explica.
O quadro estadual reflete uma tendência nacional de aumento da pressão financeira. Em fevereiro, o Brasil registrou 8,8 milhões de empresas inadimplentes, com 60,7 milhões de dívidas que somam R$ 204,6 bilhões, segundo dados da Serasa Experian. Um ano antes, esse valor era de R$ 164,2 bilhões.
Camila Abdelmalack destaca que o avanço está diretamente ligado às condições de crédito. “O aumento do volume das dívidas das empresas reflete, principalmente, a combinação entre juros ainda elevados, crédito mais seletivo e maior dificuldade de rolagem de passivos”, afirma.
Ela ressalta que, apesar da queda da taxa básica de juros (Selic), o custo do crédito continua elevado. “Mesmo com o início do ciclo de queda da Selic, o custo do crédito na ponta segue alto, porque depende também da percepção de risco, dos juros futuros e das condições de funding das instituições financeiras”, diz.
Na prática, isso reduz a capacidade das empresas de reorganizar suas finanças. “Nesse ambiente, muitas empresas encontram mais dificuldade para acessar novas linhas, renegociar dívidas antigas ou alongar prazos, o que faz com que os passivos em atraso se acumulem.”
Além do crescimento no número de empresas inadimplentes, os dados apontam um agravamento qualitativo do problema, com dívidas mais concentradas e persistentes. Em média, cada empresa inadimplente no país acumula cerca de sete pendências.
“Esse nível de inadimplência indica um ciclo mais longo, em que a regularização financeira depende não só de pagamento pontual, mas de uma reorganização mais ampla do passivo e do fluxo de caixa”, aponta Camila Abdelmalack.
Pequenas empresas somam 95% das inadimplentes
O setor de serviços concentra 55,4% das empresas inadimplentes no Brasil, seguido por comércio (32,6%), indústria (8,1%) e setor primário (0,9%). A predominância acompanha o peso do segmento na economia e também sua forte presença entre micro e pequenas empresas, grupo que representa 95,2% dos CNPJs inadimplentes. Nesse contexto, a vulnerabilidade é maior. Com menor acesso a crédito e maior dependência de capital de giro, esses negócios são mais impactados por juros elevados e restrição financeira.
Apesar da leve oscilação recente, a inadimplência segue próxima do maior patamar da série histórica. Para a economista, ainda não há sinais claros de reversão no curto prazo. “Ainda é prematuro falar em um novo ‘normal’, mas o que os dados mostram é que estamos em um ciclo mais prolongado de crédito restritivo”, afirma.
Ela avalia que o cenário deve continuar pressionado. “Não há sinais claros de reversão da inadimplência e ainda é cedo para afirmar que o pior já passou. A tendência é de ajuste lento, condicionado à melhora mais consistente das condições de crédito e do ambiente macroeconômico.”
Ne tem 1,17 milhão de empresas inadimplentes
O Nordeste concentrou 1,17 milhão de empresas inadimplentes em fevereiro de 2026, com 6,03 milhões de dívidas que somam R$ 17,6 bilhões. A Bahia lidera em volume, com 324.175 CNPJs no vermelho, seguida por Pernambuco (211.014) e Ceará (185.396). Esses três estados também concentram os maiores valores absolutos da inadimplência, com R$ 4,23 bilhões, R$ 3,19 bilhões e R$ 2,75 bilhões em dívidas, respectivamente.
O Rio Grande do Norte aparece fora do topo em quantidade, com 90.093 empresas inadimplentes, mas se destaca pela intensidade dos débitos. O estado lidera o Nordeste em dívida média por empresa (R$ 20.215,73), número médio de dívidas por CNPJ (6,1) e ticket médio (R$ 3.337,11). Em valores totais, soma R$ 1,82 bilhão em dívidas, superando estados como Maranhão (R$ 1,75 bilhão) e Paraíba (R$ 1,52 bilhão), mesmo com menor número de empresas inadimplentes.
A diferença entre os estados também aparece nos indicadores médios. Enquanto o RN registra dívida média superior a R$ 20 mil por empresa, Alagoas tem o menor valor da região, com R$ 10.995,59 — quase metade. Pernambuco, por sua vez, se destaca com dívida média de R$ 15.154,48, enquanto o Ceará registra R$ 14.852,95.
No cenário nacional, o Brasil alcançou 8,8 milhões de empresas inadimplentes em fevereiro, com 60,7 milhões de dívidas que totalizam R$ 204,6 bilhões. O Sudeste lidera com 4,89 milhões de CNPJs inadimplentes, seguido pelo Sul (1,49 milhão) e Nordeste. Em um ano, o valor total das dívidas cresceu de R$ 164,2 bilhões para R$ 204,6 bilhões, enquanto a média por empresa chegou a R$ 23,2 mil e o ticket médio a R$ 3.370,5, patamar próximo ao observado no Rio Grande do Norte.
Tribuna do Norte



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