Lula conquista bairros ricos enquanto perde terreno entre os pobres

Resultados do Rio de Janeiro e de São Paulo mostram contradições no voto petista esperado enquanto a vantagem histórica de Lula no Nordeste diminui.

Foto: reprodução

O que explica Lula ter mais votos nos bairros ricos do Rio de Janeiro do que nos bairros pobres? E como entender que o presidente, cuja trajetória política está associada à defesa dos trabalhadores e das populações de menor renda, esteja perdendo espaço em antigos redutos populares? O primeiro turno de 2026 revelou contradições que deveriam provocar uma reflexão dentro do PT. Talvez o partido esteja convencido de que sabe o que os brasileiros mais pobres precisam, sem perceber que as prioridades dessas pessoas podem ter mudado.

Um levantamento realizado na semana passada, cruzando dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com informações de renda do Censo do IBGE, analisou 149 bairros do Rio de Janeiro. Nos 20% de bairros mais pobres, Flávio Bolsonaro recebeu 51% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 41,2%. Nos 20% de maior renda, a situação se inverteu. Lula chegou a 49,7%, contra 41,3% de Flávio.

É uma diferença de 8,5 pontos percentuais na votação do presidente entre os dois extremos de renda. Lula teve um desempenho proporcionalmente melhor nos bairros mais ricos do que nos mais pobres. Isso não significa que todos os ricos votaram nele ou que os pobres escolheram Flávio. Mas demonstra que a identificação histórica entre o PT e as populações de baixa renda já não é suficiente para explicar a distribuição dos votos.

O resultado também merece atenção porque não representa uma mudança generalizada em relação a 2022. Apenas cinco dos 149 bairros trocaram o partido mais votado. A divisão social já estava presente e continuou aparecendo nas urnas. O PT precisa compreender por que isso acontece, mas não parece querer entender o fenômeno.
São Paulo

Na capital paulista, o fenômeno apresenta algumas dessas características também. Lula venceu em bairros de renda elevada, como Pinheiros, Perdizes e Vila Mariana, mas perdeu a liderança em algumas áreas populares onde havia derrotado Jair Bolsonaro quatro anos antes.

Em Sapopemba, na zona leste, Lula recebeu 43,7% dos votos em 2022, contra 42,9% de Jair Bolsonaro. Neste ano, Flávio Bolsonaro venceu com 45,2%, enquanto o presidente ficou com 43,8%. O petista praticamente manteve seu percentual, mas o adversário cresceu o suficiente para ultrapassá-lo. Mudanças semelhantes ocorreram no Cangaíba e na Ponte Rasa, também bairros mais pobres.

Lula continua vencendo em importantes periferias paulistanas, como Grajaú e Cidade Tiradentes. Mas o avanço bolsonarista em alguns desses territórios populares mostra que esse eleitorado não pode mais ser tratado como uma propriedade política adquirida. O fato de um partido ter construído sua história defendendo determinada parcela da população não significa que continuará recebendo seus votos indefinidamente.


JCPE

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